The extra in the ordinary

By Catarina Guimarães

Choosing tracks for a life is the ultimate creative work ~ Escolher os trilhos de uma vida é o derradeiro trabalho criativo

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(PLEASE SCROLL DOWN FOR ENGLISH VERSION)

Adoro um viver em que as coisas não se sobrepõem às memórias ou às experiências.

Há alturas na minha vida em que sinto a necessidade de libertar alguma bagagem física e tenho andado a direccionar essa energia para a minha interminável colecção de livros.

Durante este processo encontrei um livro que me ofereceu uma experiência bastante forte, quando o li em 2001. Chama-se Trilhos e é o relato da aventura verídica da autora, Robyn Davidson, uma jovem citadina australiana obcecada com o projecto de atravessar 2500kms praticamente desertos usando apenas camelos como transporte. (Acreditem que não é uma viagem propícia a veganos.)

A viagem prova ser extenuante ainda antes de começar e a autora vê-se perante tantos desafios internos como externos e acaba por se transformar totalmente, assim como a maneira com que se relaciona com o mundo, com a sua vida e até consigo própria.
O livro é um retrato interessante da Austrália dessa época, com os problemas e tensões sociais, raciais e culturais e, claro, a paisagem belíssima mas bastante inóspita.

Primeiro peguei no livro e juntei-o ao monte para “guardar” e não pensei mais no assunto, mas nos dias seguintes fui surpreendida por inúmeras referências ao mesmo, para onde quer que olhasse. Acabei por ficar com a sensação que tinha que o ler outra vez, por alguma razão, e assim fiz. Enquanto lia as mesmas páginas que me fizeram companhia há quase 14 anos, não consegui evitar pensar nessa altura da minha vida.

Tinha acabado de concluir o liceu e o meu plano era estar em Nova Iorque no fim desse verão, pronta para começar o novo ano lectivo nos Estados Unidos. Mas houve quem tivesse outros planos para mim e eu acabei por ficar, sentindo-me emprisionada em Portugal. Por algum motivo, escolhi entrar em setembro bem lá no norte do país, numa praia fria e muito ventosa, sozinha. Com alguns livros.
(Jesus, como eu costumava ser tão independente!)

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Ainda me lembro como se fosse ontem, estava sentada numa esplanada em frente à praia a ler este mesmo livro, quando a minha mãe me telefona a perguntar se eu estava perto de alguma televisão e a dar-me a notícia que as Torres Gémeas estavam a ser atacadas por aviões. Sim, foi esse Setembro.

Desde então muito tem acontecido no mundo e na minha vida. Reler este livro provocou muitos sentimentos mas principalmente pensamentos sobre quem eu era nessa altura, onde estava na minha jornada e, ainda mais importante, quem eu acreditava ser e as possibilidades que via para a minha vida. Reflecti em como tudo se transformou ao longo dos anos e em como eu permiti que as circunstâncias, algo exterior a mim, dessem forma a quem eu sou, como recriei vezes sem conta a minha identidade, as minhas relações, as minhas opiniões e crenças, as minhas histórias sobre o passado e sobre o futuro e até a minha perspectiva perante situações no momento em que estas ocorriam. Apenas as paixões terão permanecido iguais, embora algumas tenham andado enterradas durante longos anos.

Mas antigamente eu não tinha consciência de nada disso e não sabia que era uma parte activa no processo criativo de desenhar uma vida ou em tornar-me eu própria.

Isto deixou-me a pensar que praticamente nada do que nos acontece é simplesmente bom ou mau, que aquilo que fazemos das circunstâncias e aquilo que nos permitimos aprender com elas é que conta realmente.

É escusado dizer que, para a maioria de nós, crescer e entregarmo-nos a essas lições acarreta grandes dores. E normalmente, quando finalmente compreendemos que a dor e a depressão são apenas algumas das opções, já somos mestres em ambas.

Comparar quem eu sou hoje com quem era nesse dia, dá-me a sensação de terem passado um milhão de vidas entretanto.

Quem era essa pessoa?
Mas, mais importante ainda, quem é que eu quero ser hoje? Quais são as sementes que quero plantar e regar agora?
Porque como se vive hoje é como se cria um futuro, e não propriamente por andar a fazer planos.

Ao terminar a leitura de Trilhos pela segunda vez, ainda estava meio confusa sobre porque me tinha parecido ser tão importante ler o livro outra vez. E foi então que vi, mesmo no fim do livro, na última página, algo que escrevi a lápis durante esse verão:

“Nuvens numa tela azul suspensa por cima dos nossos sonhos.
Tapetes verdes em forma de seta indicam-nos o caminho para a utopia.
O horizonte permanece ileso ao tempo, e deixa-nos passar.
Vê-se tufos de harmonia que despertam o desejo de passear, saboreando os carinhos do vento no nosso corpo diminuto.
Num momento assim, não há nada que seja impossível.”

E nesse momento, foi quando ouvi:
Lembras-te, Catarina? Como te sentias quando acreditavas na liberdade total?

~~~~~~~~~~~

* (podem encontrar a receita para a taça de Açaí aqui.)

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ENGLISH:

I love a living where things don’t overpower feelings, memories or experiences.

There are times in my life when I feel the need to release some actual physical baggage and I’ve been directing that energy towards my endless collection of books.

During this process I found a book that offered me a really strong experience when I read it back in 2001. It’s called Tracks and it’s the real life adventure of Robyn Davidson, the author, a young city girl from Australia that felt an obsessive urge to cross 2500km of mostly deserted land all by herself, using only camels for transportation. (Trust me, it’s not a vegan friendly journey at all).

The trip proves to be strenuous even before it starts and the author stumbles upon so many internal and external challenges that she goes through a major transformation, changing the way she relates to the world and even to herself and her own life.
The book is a really interesting and colorful picture of what Australia was back then, the social, racial and gender tensions and problems, and of course, the beautiful but very harsh landscape.

At first I just put the book on the “keep” pile and didn’t really think about it anymore. But the following days I was surprised to see references and images of the book almost everywhere I looked. So I got this feeling that I was supposed to read it again, for some reason, and I did. While reading those pages that kept me company almost 14 years ago, I couldn’t help but reminisce about that time in my life.

I had just finished high school and my plan was to be in New York by the end of the summer, getting ready to begin my new school year in America. But someone else had other plans for me and I stayed, feeling imprisoned in Portugal. Somehow I chose to spend that September all the way up in the northern part of the country, at a cold windy beach, all by myself. And a few books. (Jesus, I used to be so independent!)

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I still remember like it was yesterday, sitting outside at a beachfront coffeeshop, reading this very book and getting a call from my mother, asking me if I was near a television and letting me know that the Twin Towers in New York were under attack by some planes.
Yes, it was that September.

A lot has happened in the world and in my life since then and rereading this book brought up so many feelings but mostly thoughts about who I was back then and where I was in my journey, but more importantly, who I believed to be and the possibilities I saw for my future.

I reflected on how all that changed over the years, how I allowed circumstances, something external from myself, to actually shape me, how I recreated over and over my identity, my relationships, my opinions, my beliefs, my stories about the past and the future and even how I perceived events as they were happening. Only my passions stay the same, although some were buried deep for really long years.

But back then I wasn’t aware of any of it. I didn’t realise I was part of the creative process of designing a life or even becoming myself.

It really got me thinking that almost nothing that happens to us is just good or bad really, it’s what we make of it and how much we allow ourself to learn from it that truly matters. It goes without saying that for many of us, growing and surrendering to the teachings come with great pain. And usually by the time we understand that suffering and depression are just another option, we already have a masters degree in both.

Comparing who I was back then and who I am know, feels like a million other lives have gone by in between.

Who was that person?
But more importantly, who do I want to be right now? What are the seeds I want to plant and water right now? Because how I live today is how I create a future, and not so much by planning it.

And by the time I had finished Tracks for the second time I was still a bit confused about why it felt so important to read it again. And then I saw it, right at the end of the book, on the very last page, something I wrote in pencil during that summer. It’s in portuguese but I translated it for you:

“Clouds in a blue canvas suspended over our dreams.
Green carpets shaped like arrows show us the way to utopia.
The horizon remains unharmed by time, and it lets us walk by.
You can see tufts of harmony that awaken the desire to wander, savouring the caresses of the wind on our diminished bodies.
At such a moment, nothing is impossible.”

And that’s when I heard it:
Remember, Catarina? How it felt to believe in total freedom?

~~~~~~~~~~

* (you can find the recipe for the Acai bowl here.)

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